Em setembro, a Casa dos Ventos inaugurou mais um complexo eólico no Nordeste. Ventos de Tianguá, localizado na Serra da Ibiapaba, Ceará. O empreendimento contou com investimento de aproximadamente R$ 800 milhões e é composto por cinco usinas eólicas e 77 aerogeradores. Um projeto ambicioso, com capacidade instalada de 130 MW de energia, suficiente para abastecer aproximadamente 150 mil residências.

Para falar sobre os desafios de um projeto como esse, entrevistamos João Vidal, Gerente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Casa dos Ventos. Advogado com especialidade em direito ambiental e gestão estratégica de sustentabilidade, João possui experiência de 10 anos na gestão socioambiental de projetos de infraestrutura, especialmente os ligados à geração de energia renovável. Ele está na Casa dos Ventos desde 2015.

 


1. Tianguá é um empreendimento construído em uma propriedade da Casa dos Ventos, que tipos de preocupações socioambientais são consideradas?

Questões como conservação da biodiversidade e engajamento com as comunidades locais são sempre assuntos de relevância em qualquer projeto de infraestrutura. No caso do Complexo de Tianguá, por mais que este esteja inserido em uma propriedade da companhia e que questões como negociação de terras não sejam aplicáveis, continuamos com o compromisso de avaliar a dinâmica das comunidades ao redor e nosso eventual impacto no cotidiano dessas pessoas. No aspecto da biodiversidade, o Complexo de Tianguá está inserido na Área de Proteção Ambiental Serra da Ibiapaba, importante unidade de conservação do bioma caatinga, refúgio de algumas espécies de fauna vulneráveis como o gato do mato e onça parda. Nosso compromisso está no cumprimento da legislação ambiental e de saúde e segurança do trabalho, bem como na conservação do meio ambiente. Também buscamos mitigar impactos através da construção de uma relação de respeito junto às comunidades, por meio do engajamento em iniciativas de interesse da coletividade.

2. Do ponto de vista ambiental, quais são os maiores desafios ao instalar um parque eólico?

Os desafios socioambientais de um projeto eólico são inúmeros e são enfrentados desde a concepção do projeto, na fase de prospecção e arrendamentos de propriedades, passando pela implantação do empreendimento, operação e descomissionamento. De forma geral há uma atenção especial na identificação dos impactos e riscos socioambientais por meio da divulgação de informações relacionadas ao projeto e da consulta às comunidades locais sobre assuntos que as afetam diretamente. É fundamental também realizar a gestão do desempenho socioambiental durante todo o ciclo de vida do projeto. Também adotamos medidas para evitar, minimizar e, quando não for possível, compensar riscos e impactos aos trabalhadores, às comunidades afetadas (principalmente as populações tradicionais), ao patrimônio cultural e ao meio ambiente natural.

3. Existe alguma comunidade próxima ao empreendimento? Se sim, alguma ação socioambiental está prevista com esses moradores?

O Complexo de Tianguá tem uma característica distinta dos demais projetos da Casa dos Ventos por estar integralmente inserido em propriedade particular da empresa. Porém isto não quer dizer que não tenhamos uma preocupação de contribuir para melhoria da qualidade de vida das comunidades que estejam um pouco mais próximas dessa área. Um exemplo disso foi a campanha de Natal Solidário que promovemos junto a 100 famílias em região próxima ao projeto.

 

 

4. Como são mensurados os impactos que um projeto como esse traz para as aves e morcegos da região? Quem faz esses estudos e no que eles se baseiam?

A avaliação de impactos na avifauna (fauna alada) é um dos principais enfoques dos estudos ambientais elaborados para o licenciamento ambiental de um empreendimento eólico. Os eventuais impactos em aves e morcegos são uma preocupação tanto dos órgãos ambientais licenciadores como dos empreendedores. No caso do Complexo Eólico de Tianguá não foi diferente. A avaliação de impactos ambientais é elaborada por uma equipe multidisciplinar que avalia as ações do projeto dentro de uma relação causa/efeito usando como critérios o caráter, magnitude, importância, duração, condição ou reversibilidade, ordem, temporalidade e escala. Os estudos prévios de impactos ambientais baseiam-se em diagnóstico de campo e buscam identificar a presença das espécies existentes, desde sua quantidade, gênero, comportamento e classificação de risco de ameaças de extinção. Os estudos também consideram a revisão bibliográfica e dados oficiais sobre a área de influência direta e indireta do empreendimento.

Especificamente em relação à avifauna, na fase de implantação é conduzido o monitoramento, resgate e afugentamento da fauna para evitar que durante as ações de desmatamento possam ocorrer danos a ninhos existentes nas copas das árvores e arbustos. Já na fase de operação. a maior preocupação é de eventual colisão das aves com os aerogeradores. Ressalta-se que apesar de existir o risco dos acidentes, as estatísticas que relacionam a morte de aves com o funcionamento de parques eólicos estão ligadas principalmente à conformação das usinas antigas, onde ainda se utiliza tecnologia ultrapassada. Atualmente, os aerogeradores possuem pás maiores, requerendo uma frequência de rotação menor para produção de uma potência maior de energia. Deve-se considerar ainda, que o aumento no tamanho dos aerogeradores implica em maior distanciamento entre as torres, o que resulta em menor densidade de ocupação do solo. Todos estes fatores contribuem significativamente para a diminuição dos impactos sobre os acidentes com a avifauna.


5. Quando o parque entra em funcionamento, como continua o trabalho realizado pelo departamento que você representa?

Diria que nosso trabalho está apenas começando. Mesmo com o encerramento da construção dos parques eólicos, os trabalhos na gestão socioambiental do projeto continuam ao longo da operação do projeto. Estamos empenhados em continuar avaliando nosso desempenho ambiental, buscando oportunidades de melhoria e atendendo as exigências dos órgãos licenciadores, regulatórios, financiadores e de nossos acionistas. Hoje contamos com uma equipe de oito profissionais dedicados ao monitoramento ambiental de programas como a gestão de resíduos sólidos, monitoramento de ruídos, monitoramento da fauna, comunicação social, educação ambiental e acompanhamento da situação de saúde das populações circunvizinhas ao empreendimento, dentre outros.