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Com retomada dos leilões, investidores e empresas esperam alcançar em 2020 o posto de segunda fonte de energia do país

Por Felipe Datt

Inaugurado em fevereiro de 2018, o Complexo Eólico Ventos do Piauí é um marco importante na história da Votorantim Energia. Fruto de investimentos de R$ 1,2 bilhão, o empreendimento crava a estreia do braço de energia desse grupo industrial centenário na área de produção de energia eólica. Constituído por sete parques eólicos, incluindo 98 aerogeradores e 206 MW de capacidade instalada, o complexo foi o primeiro empreendimento anunciado após a criação de uma joint venture entre a empresa e o Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB), uma organização de gestão de investimentos, para investir no setor de geração de energia no Brasil.

Até a conclusão desse investimento, o parque gerador da Votorantim no Brasil reunia 32 usinas hidrelétricas, com capacidade total de 2,6 GW. Com a entrada no ramo eólico, o plano estratégico da empresa é se transformar em um dos players mais relevantes do setor de energia no Brasil. “Nosso foco é crescer em energia renovável, olhando além de ativos hídricos. A energia eólica e a solar serão o foco principal dos investimentos”, revela o diretor financeiro da Votorantim Energia, Raul Cadena.

Localizado na divisa dos Estados do Piauí e de Pernambuco e com capacidade instalada suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes, o Complexo Eólico Ventos do Piauí é mais um exemplo de empreendimento que, ao longo dos últimos nove anos, se espalhou por diversos Estados das regiões Nordeste e Sul do país e que, movido pela força dos ventos, levou a participação da fonte eólica na matriz energética brasileira a alcançar 8,3% em fevereiro de 2018, de acordo com os dados mais recentes da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

Com isso, a energia eólica já empata com o gás natural como terceira fonte de energia em capacidade instalada no Brasil e se aproxima cada vez mais da biomassa (9,3%), a segunda colocada. O Brasil atingiu, em janeiro de 2018, 13 GW de capacidade eólica instalada. No total, são 6.600 aerogeradores instalados em um total de 518 parques eólicos em operação ou em fase de implantação. “Considerando o que já foi contratado nos últimos leilões, a expectativa é que a energia eólica se torne a segunda fonte em importância na matriz energética brasileira a partir de 2020, mantendo-se nesta posição por um longo período”, projeta a presidente da ABEEólica, Elbia Gannoum.

Trata-se de um crescimento sem precedentes, considerando que os primeiros projetos eólicos, subsidiados pelo Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfra), datam de 2004, há menos de uma década e meia. O desenvolvimento do setor começou a ganhar tração especialmente a partir de 2009, com a realização dos primeiros leilões de contratação de energia eólica no Brasil. De lá para cá, o avanço da fonte foi avassalador. De acordo com pesquisa divulgada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a energia eólica abasteceu uma média de 67 milhões de brasileiros em 2017. Em 2016, foram 52 milhões de pessoas.

Números como estes alçaram o Brasil, em 2017, à oitava posição no Ranking Mundial de Capacidade Instalada Total de Energia Eólica, segundo o levantamento compilado pelo Global World Energy Council (GWEC), ultrapassando o Canadá (12,39 GW de capacidade instalada). Apesar de ser o oitavo colocado em capacidade instalada, o Brasil já é o sétimo no ranking global quando o assunto é geração de energia a partir dos ventos. Isso é explicado pelo fato de o país ter um dos “melhores” ventos do mundo. Na prática, características como ventos fortes, constantes e unidirecionais – típicos das regiões Sul e Nordeste e praticamente inexistentes no restante do globo –, garantem uma melhor produtividade das turbinas nas usinas geradoras de energia. Enquanto em países como a Alemanha o chamado “fator de capacidade” (FC) da fonte eólica – a média de sua produtividade – é de 28%, no Brasil esse valor médio foi de 42,9% em 2017. O fator de capacidade aumenta ainda mais na chamada “safra dos ventos” no Nordeste, que dura de julho a novembro.

“O potencial de produção de energia eólica no Brasil é praticamente infinito”, resume Elbia Gannoum. Fatores como a qualidade dos ventos, a aposta do governo federal na geração de energia mais limpa e renovável, o avanço tecnológico na última década e a realização de leilões em bases quase anuais também trouxeram como consequência o drástico barateamento do custo de geração da energia eólica.

Em 2004, esta energia custava seis vezes mais do que a gerada pelas hidrelétricas. No último leilão de contratação, em dezembro de 2017, a eólica se tornou a fonte de energia com preço mais competitivo. No leilão de energia A-4, realizado no início de abril, foram cadastrados 1.672 empreendimentos (48,7 GW), dos quais 931 projetos de energia eólica, segundo levantamento da EPE. O preço médio da energia eólica surpreendeu e ficou em R$ 67,70 o MWh, um deságio de 73,49% que reforçou a tendência de queda de preços. A fonte solar registrou preço médio de R$ 118,07/MWh.

A retomada dos leilões de contratação de energia, após dois anos de interrupções por conta do cenário de retração econômica, deu novo fôlego ao setor e abriu perspectivas de crescimento mais robusto na capacidade instalada de geração de energia a partir dos ventos nos próximos anos, impactando positivamente também a cadeia de fornecedores de pás e aerogeradores. Considerando apenas o que foi comercializado nos últimos leilões, serão mais 213 novos parques eólicos instalados no Brasil até 2023, em um total de mais 4,8 GW em construção ou contratados. Na prática, isso significa que, em breve, a capacidade eólica instalada será maior que a de Itaipu, a maior hidrelétrica brasileira (14 GW). 

A perspectiva de aumento na demanda nos próximos anos, ancorada por uma economia que saiu da recessão e deve avançar 3% este ano, atrai mais investidores para o ramo de geração de energia eólica. Em 2017, foram R$ 11,5 bilhões investidos no setor eólico, representando 58% dos investimentos realizados em todas as fontes renováveis. De 2010 a 2017, o investimento somou US$ 32 bilhões, segundo a associação do setor.

No caso da Votorantim Energia, a parceria com os canadenses do CPPIB já nasce com dois complexos eólicos operacionais no Nordeste do Brasil. Além do Ventos do Piauí, entrou em operação no final de 2017, o Ventos do Araripe III, localizado na divisa dos Estados do Piauí e de Pernambuco e com capacidade instalada de 359 MW. O empreendimento foi adquirido da desenvolvedora Casa dos Ventos. Nos dois casos, quase a totalidade da produção já está contratada no mercado regulado, com contratos de fornecimento de 20 anos.

Esses parques, entretanto, não são os únicos projetos no radar da joint venture com os investidores canadenses. Conforme Raul Cadena, CFO da Votorantim Energia, o objetivo é investir R$ 3 bilhões nos próximos três a cinco anos em projetos de geração de energia eólica, solar ou em Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). “Podemos tanto apostar em operações de aquisição (M&A), comprando ativos já em operação, como podemos também desenvolver um projeto do zero. As duas opções serão tocadas em paralelo”, diz Cadena.

O horizonte do setor é positivo, na visão de Lucas Araripe, diretor de novos negócios da Casa dos Ventos, citando os dois leilões programados para 2018, o A-4 (em abril), que deve ter um pequeno volume de contratação, e o A-6 (que ocorrerá entre maio e agosto), em que a demanda deverá ser mais robusta. “A partir de 2019 a base do PIB será maior. Isso vai requerer aumento de carga relevante. O cenário é de retomada de demanda”, diz o executivo.

Com dez anos de atuação completados em 2017, a empresa é atualmente a maior investidora no desenvolvimento de projetos eólicos no Brasil. Até agora, a aposta foi no desenvolvimento e implantação dos projetos, seguida da venda dos empreendimentos para investidores ou utilities internacionais da área de energia com interesse em projetos atraentes para a participação em leilões.

Em 2016 e 2017, a Casa dos Ventos finalizou a implantação e vendeu cinco parques eólicos na região Nordeste. Dois deles, o Ventos do Araripe I (Piauí) e o Ventos de Santa Brígida (Pernambuco), foram comprados pela Cubico Sustainable Investments em transações que somaram R$ 2 bilhões. Outras três operações passaram para as mãos da Echoenergia, braço de energia renovável do grupo britânico Actis, além da Votorantim Energia. Os valores dessas negociações não foram revelados.

“Decidimos desinvestir nos projetos para termos liquidez e vislumbrarmos novas oportunidades de investimentos. Já viabilizamos 5 GW de um total de 20 GW no nosso pipeline”, diz Araripe, citando que o próximo empreendimento deverá ser localizado na Bahia ou no Rio Grande do Norte. A expectativa, nos próximos anos, é que a Casa dos Ventos também mantenha alguns parques eólicos em seu portfólio. “Queremos reter alguns projetos dentro de casa para nos tornarmos um dos grandes geradores eólicos do país”, diz.

A Neoenergia tem hoje 516 MW instalados em operação comercial, distribuídos em 17 parques eólicos. Em dezembro de 2017, sagrou-se vencedora do leilão A-6 de energia nova com mais nove parques localizados na Paraíba, com capacidade instalada total de 295 MW, cujo início de suprimento é janeiro de 2023. Os projetos estão na fase final de adjudicação do certame e início dos trâmites regulatórios e administrativos, que precedem as obras no setor eólico.

Os nove projetos vencedores no leilão de dezembro de 2017 são vizinhos aos 95 MW em parques que foram entregues em outubro de 2017, também na Paraíba. A Neoenergia buscará viabilizar a implantação de seu portfólio de projetos por meio de venda de energia no ambiente regulado (leilões) ou livre (acordos bilaterais). “Além disso, o grupo desenvolve um portfólio de projetos eólicos e fotovoltaicos de aproximadamente 1,5 GW, sendo 400 MW já cadastrados na Empresa de Pesquisa Energética”, diz Laura Porto, diretora de renováveis do grupo Neoenergia.

Na Atlantic Energias Renováveis, fundada em 2009 em Curitiba (PR), a expectativa com a retomada da economia – e a maior demanda por energia nos leilões – já se traduz no planejamento para a implantação de novos empreendimentos. “Temos aproximadamente 350 MW para serem desenvolvidos. A expectativa é de reaquecimento da economia e não podemos ficar à margem desse cenário”, afirma José Roberto de Moraes, CEO da Atlantic, que desde meados de 2016 é controlada pelo fundo de investimento britânico Actis.  

No total, os cinco parques eólicos no portfólio da empresa têm potência instalada de 642 MW, dos quais 195 MW estão em fase de implantação no Piauí, no Complexo Eólico Lagoa do Barro. O primeiro parque do complexo deve entrar em operação em meados de 2018. Os outros empreendimentos - Eurus II e Renascença V (RN), Morrinhos (BA) e Santa Vitória do Palmar (RS) – já operam e comercializam energia no mercado regulado.

Fonte: Valor Setorial Energia