araripe

Depois de vender a montadora Troller para a Ford, por R$ 500 milhões, Mário Araripe passou a vender vento ao criar a maior empresa de energia eólica do país. O novo negócio já vale dez vezes mais

Na terça-feira 30, o empresário cearense Mário Araripe ligou para Jackson Schneider, presidente da divisão de defesa da fabricante de aviões Embraer. Fazia algum tempo desde a última vez que os dois haviam se falado. “Queria conversar sobre essa questão do carro elétrico”, contou Araripe à DINHEIRO, pouco antes de conceder uma entrevista em seu escritório na Av. Faria Lima, importante centro financeiro e empresarial de São Paulo. Schneider trabalhou por duas décadas na alemã Mercedes-Benz e acompanha de perto a criação de um veículo autônomo voador, que está sendo desenvolvido pela empresa brasileira em parceria com a Uber. Araripe está atento à mudança da matriz energética do setor automotivo. “Eu acredito que irá acontecer mais rápido do que se imagina”, afirma. Ele tem motivos para isso.

Em 2006, Araripe vendeu, para a americana Ford, a fabricante de jipes Troller, por um valor estimado de R$ 500 milhões. No ano seguinte, decidiu investir no setor elétrico e criou a Casa dos Ventos, atualmente a maior empresa de geração eólica do Brasil. Nos últimos dois anos, a companhia finalizou e vendeu cinco parques eólicos, todos no Nordeste. Dois deles, o Ventos do Araripe I e o Ventos de Santa Brígida, no Piauí e em Pernambuco, respectivamente, renderam à companhia uma receita de R$ 2 bilhões. Ambos foram comprados pela Cubico Sustainable Investments, empresa canadense controlada pelo Fundo de Pensão dos Professores de Ontário, um colosso com US$ 126 bilhões em ativos, e a gestora de fundos PSP Investments, cujo portfólio soma US$ 111 bilhões.

lucas

As outras três operações acabaram negociadas com a Echoenergia, braço de energia renovável do grupo britânico Actis; com a Votorantim e com o CPPIB, outro fundo de pensão canadense. Os valores não foram revelados, mas é seguro dizer que os ativos foram vendidos por um preço superior ao montante investido, de R$ 3,8 bilhões. Entre 2016 e 2017, Araripe e sua Casa dos Ventos instalaram mais de 1 GW de potência energética no País, cerca de duas vezes o consumo do Estado do Piauí, cuja população é de 3,2 milhões de pessoas. Em investimentos, quase R$ 6 bilhões foram movimentados. Questionado se a empreitada energética já é mais valiosa do que a fabricante de automóveis, Araripe não faz rodeios: “Dez vezes mais”. “O vento vale mais do que o petróleo”, afirma.

Não é simples multiplicar por dez um patrimônio, em tão pouco tempo. Mesmo com uma boa ideia. O segredo de Araripe, dono de uma fortuna estimada em US$ 1,3 bilhão, está na observação. Ele conta que decidiu apostar no vento depois de tentar uma série de outros negócios, incluindo Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e a exploração de petróleo. Mas o empresário queria investir em algo que desse retorno e, ao mesmo tempo, tivesse um efeito benéfico na sociedade. A energia eólica casava as duas características. Quando começou na área, em 2007, a eletricidade dos ventos não chegava a 1% da matriz elétrica brasileira. Os investidores, e o governo, ainda estavam envoltos nos grandes projetos hidrelétricos, como a usina de Belo Monte. “Eu percebi que, se quisesse ter sucesso nesse negócio, teria de entender o vento”, diz Araripe. E assim o fez.

Juntamente com seu filho Lucas, que hoje comanda a área de novos negócios da Casa dos Ventos, o empresário deu início a um grande mapeamento das áreas mais propensas a ventar forte. “O pessoal, geralmente, coloca duas torres de medição. A gente usa 20”, diz Lucas. Cada lufada é medida com precisão, o que faz grande diferença. Uma das principais métricas para avaliar o valor de um parque eólico é o chamado fator de produtividade. Basicamente, é a proporção do vento que é transformado em energia. Nos últimos 12 meses, a média brasileira esteve em 41,7%. No Vale do Araripe III, um dos parques construídos pela Casa dos Ventos e vendido para a Votorantim, o porcentual médio é de 62%. “O vento nunca para, ele só diminui”, diz Araripe, que estudou engenharia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e gestão na universidade americana Harvard. “Eu só preciso saber onde colocar meu gerador.”

Curiosamente, a inspiração do empresário para estudar o comportamento dos ventos não veio dos céus, mas do mar. Quem o apresentou ao estudo das correntes marítimas foi o navegador Amir Klink, com quem fez parceria ainda nos tempos da Troller. “Se você solta um barco em uma corrente, ele vai chegar do outro lado. Com o vento, é a mesma coisa”, afirma Araripe. Mas há alguns detalhes. Ele explica que, no Piauí, a grande amplitude térmica provoca um efeito de “compressão” no vento. À medida que a temperatura cai, o ar frio que está em cima, mais pesado, pressiona o ar quente próximo à superfície, fazendo com que ele “escape” com maior velocidade. “É bem ali que eu coloco minha turbina”, afirma. “O vento tem algo de poético. É bonito.”

parqueeolico

MERCADO EM ALTA 

A Casa dos Ventos tirou proveito, também, do forte crescimento da energia eólica no País. Hoje, ela é a quarta mais importante fonte da matriz elétrica brasileira, com 8,2% de participação, atrás da hidrelétrica e das térmicas por biomassa e gás natural (veja quadro ao final da reportagem). Os ventos têm sido fundamentais para manter o abastecimento no Nordeste. Não é exagero dizer que, sem a energia eólia e em virtude da seca que afeta a região, os nordestinos, fatalmente, estariam vivenciando tempos de apagão. Em setembro do ano passado, por exemplo, as eólicas chegaram a responder por 64% da eletricidade consumida no Nordeste.

Há dez anos, a importância dessa fonte era irrisória. Em 2007, a capacidade instalada dos ventos somava apenas 245,6 MW. No ano passado, ela chegou a 12.763,1 MW, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). “Em quatro anos, a eólica será a segunda fonte de energia mais importante, atrás apenas da hidrelétrica”, afirma Elbia Gannoum, presidente executiva da Abeeólica. Em 2022, a previsão é de que ultrapasse os 18.000 MW de capacidade instalada – estimativa que é baseada em contratos viabilizados em leilões e no mercado livre.

Recursos financeiros para essa expansão não devem faltar. “Ainda há um espaço bastante relevante para crescer”, afirma Edson Ogawa, diretor de financiamento de projetos do banco Santander. “Com a retomada econômica, haverá a necessidade de expansão da capacidade energética brasileira, o que deverá acontecer por meio de fontes renováveis, não necessariamente hidrelétricas, como aconteceu no passado.” O Santander tem sido um dos principais parceiros da Casa dos Ventos. No ano passado, a instituição financeira viabilizou um empréstimo de R$ 1 bilhão para a empresa, numa operação no modelo conhecido como “ponte” – o BNDES financia o banco, que repassa o recurso para a empresa, assumindo o risco da operação. Atualmente, o Santander tem participação em projetos energéticos que totalizam 600 MW de capacidade.

É diante dessas perspectivas que Araripe se mantém otimista. Além do que já foi desenvolvido e vendido, a Casa dos Ventos tem em seu portfólio projetos que somam 15,5 GW de capacidade instalada. Em dezembro, a empresa respondeu por metade dos 236 empreendimentos eólicos cadastrados nos leilões de energia renovável promovidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O pleito, por sinal, foi histórico para o setor. O custo da energia vendida, de R$ 98 por MW, foi o menor da história e, ainda, o mais barato registrado entre todas as modalidades, incluindo a hidrelétrica.

Mas o que mais empolga o empresário é a chegada do carro elétrico. “Em cinco anos, ele será uma realidade”, estima Araripe. Pelos seus cálculos, a transição da gasolina para a eletricidade nos carros irá gerar uma demanda adicional de energia de 24%, considerando apenas os veículos de passeio. Trata-se de uma estimativa extremamente arrojada, que está longe de ser unânime. Para Tatiana Bruce, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, há um conjunto de fatores determinantes para a introdução do carro elétrico no Brasil, e é improvável que eles se alinhem ao mesmo tempo. “O carro elétrico ainda é muito caro. Sem subsídios, será difícil que ele se popularize”, diz a pesquisadora. “E o Brasil está sem condições financeiras para viabilizar esses subsídios.”

Ainda assim, o governo planeja reduzir o IPI dos elétricos de 25% para 7%, mesma faixa dos veículos de mil cilindradas. Na mesma linha, Amílcar Guerreiro, diretor da Empresa de Pesquisa Energética, entidade vinculada ao Ministério de Minas e Energia que realiza estudos sobre o setor, afirma que o País, provavelmente, não enfrentará problemas de falta de energia para as baterias veiculares. “É o crescimento da economia que vai determinar o aumento da demanda por eletricidade”, diz Guerreiro. Ambos concordam, no entanto, que a eólica tende a ganhar importância na matriz.

O SOL É PARA TODOS 

Paralelamente ao crescimento da eólica, outra fonte de energia renovável parece começar a se desenvolver no País: a fotovoltaica. A fonte ainda é quase irrelevante para a matriz nacional, mas estão surgindo alguns projetos que prometem mudar essa realidade. A Órigo Energia, antiga EBES, vem investindo no conceito de fazendas solares. A empresa, que recebeu aportes dos fundos TPG, dos EUA, e Mov, do Brasil, inaugurou seu primeiro empreendimento no ano passado e planeja mais dez este ano. Cada fazenda exige investimentos de R$ 25 milhões. O modelo é um pouco diferente dos parques eólicos. Em vez de vender energia no mercado livre ou nos leilões, a Órigo atua diretamente com os consumidores. “Nosso mercado é o de pequenas empresas, que acabam tendo um consumo alto, mas não o suficiente para acessarem o mercado livre”, afirma Surya Mendonça, CEO da companhia – o mínimo negociável no mercado livre, modalidade em que o consumidor pode escolher qualquer fornecedor, é de 500 KW.

A ideia da Órigo é produzir energia e jogá-la diretamente na rede da distribuidora, gerando um crédito que é repassado para o cliente. O primeiro empreendimento foi instalado em uma propriedade de 2,5 hectares em Minas Gerais. Ele tem uma capacidade modesta, em comparação aos parques eólicos: 1 MW. Mas é o suficiente para atender 400 clientes – nesse caso, o investimento foi menor, R$ 5,5 milhões. A vantagem do modelo é a praticidade. Para contratar, a empresa interessada apenas assina um contrato, sem a necessidade de instalar nenhum painel. Mendonça garante uma economia de, no mínimo, 10% na conta.

A meta para 2018 é chegar a 5 mil assinantes. Esse modelo tem atraído empresas como a operadora Claro e a varejista Magazine Luiza. Ambas estão investindo na chamada geração distribuída, modelo em que a fonte de energia está próxima do local de consumo. Segundo João Pedro Neves, diretor de suporte financeiro ao negócio da Claro, a meta da operadora é ter 80% da eletricidade que abastece as torres de transmissão gerada nesse modelo. Para isso, a empresa conta com parceiros do setor de energia.

Araripe, no entanto, acredita que a energia solar ainda precisa evoluir para valer a pena como investimento, ao menos no Brasil. “A geração dos painéis ainda é muito pequena, em comparação aos geradores eólicos”, diz o empresário. De qualquer forma, ele já faz experiências com a fotovoltaica, instalando painéis solares junto das turbinas de vento, aproveitando os raios do dia e as rajadas da noite. Afinal, como ensina Amir Klink, o mar não é um obstáculo: é um caminho. “Pior do que não terminar uma viagem, é nunca partir”, escreveu o aventureiro. Araripe não é de reclamar da maré. Seu negócio é ajustar as velas e seguir em frente.

Fonte: IstoÉ Dinheiro