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Casa dos Ventos completa 10 anos preparando-se para oferecer serviços de O&M e atualizando medições em suas reservas eólicas

Em 10 anos, a Casa dos Ventos transformou-se de uma companhia de métodos de medição eólica na maior desenvolvedora de projetos da fonte no Brasil e uma das principais geradoras eólicas do país. Entre as cerca de 420 usinas eólicas em operação hoje no Brasil, 100 foram desenvolvidos pela companhia, totalizando capacidade instalada de 2,6 GW. E dos 5 GW em construção no país, 1,5 GW também foram projetados pela companhia.

Nesta entrevista exclusiva, o presidente da Casa do Ventos, Mário Araripe, reflete sobre a trajetória da empresa nos últimos dez anos. Na avaliação do embaixador do vento, título que recebeu da Abeeólica no ano passado, a grande sacada da empresa foi perceber a necessidade de se criar dados mais confiáveis e precisos sobre o potencial eólico no país, já em 2007, quando foi criada.

“Imagina que há uma determinada posição, melhor para colocar um aerogerador, o ponto A. Mas na época, não se sabia dizer onde era o ponto A, era em algum lugar em uma faixa de mais ou menos 500 metros. A nossa incerteza era foi muito menor e isso ficou claro no decorrer do tempo, quando o que a gente previu, basicamente, ocorreu. A gente dava uma faixa de 30 metros para achar o ponto ótimo do aerogerador”, lembra Araripe.

A companhia ficou conhecida em pouco tempo pela precisão e qualidade de suas medições. E a fama atraiu uma vigilância que a Casa dos Ventos se viu obrigada a despistar. “Teve uma época, que a gente fazia medição, em que a concorrência ficava sabendo onde a gente instalava torres e nos seguia. Então, o que a gente fazia? A gente colocava torre em lugar que sabia que não tinha vento”, diverte-se.

Para manter o segredo sobre as melhores “reservas” eólicas, a companhia chegou a criar uma fábrica própria de torres de medição de ventos, para evitar que os fornecedores passassem informações para os concorrentes. A unidade continua em operação, entregando uma torre de medição a cada dois dias, aproximadamente. Os equipamentos são instalados nas “reservas” eólicas da Casa dos Ventos, tornando a projeção da localização dos aerogeradores ainda mais precisa, segundo ele.

Todo esse esforço contínuo para ampliar a certeza da medição acompanhou as mudanças de regras do mercado ao longo destes anos, comenta Araripe. A contratação de eólica que era feita, no início, pelo Proinfa, avalia, não prezava tanto pela eficiência da geração, abrindo margem para contratação de projetos não tão bem estruturados.

“Aí, quando o recurso não era tão bom, a tarifa que se pagava era maior. Antes, queriam eficácia, depois quiseram a eficiência. Eficácia significa ter uma mosca na parede e dizer: vamos matar com um tiro de canhão. Matou a mosca e quebrou a parede, mas resolveu”, compara. Mas, conforme o interesse em gerar energia eólica aumentou, foi necessário incentivar a competição, através dos leilões. E a Casa dos Ventos soube aproveitar esse momento: cerca de 25% dos projetos contratados no Brasil foram desenvolvidos pela companhia.

Mas o mecanismo de contratação tem que ser olhado continuamente, alerta Araripe. Para ele, mudanças na visão do BNDES, o cancelamento do último leilão, a queda na demanda e a “extrema dificuldade” de fabricantes dificulta o financiamento de novos projetos. O presidente da Casa dos Ventos enxerga como possível solução seria contratar energia com remuneração em dólar, para acessar linhas de crédito internacionais. “Há muito dinheiro fora do Brasil, com taxas muito baixas, tem US$ 3 trilhões com taxa negativa. É simples, é só olhar o que foi feito no mundo. Teria que vender em dólar. Imagina a variação cambial nos últimos 20 anos, é mais ou menos a inflação. Se deixar essa energia, principalmente a de reserva, ser em dólar, você certamente conseguiria barateá-la. Porque a máquina lá fora é muito mais barata do que a máquina aqui dentro. Você teria muito mais opções de máquinas e você teria uma energia mais barata”, avalia Araripe.

Na visão do executivo, a mudança na precificação poderia afetar a indústria nacional de aerogeradores, mas seria melhor do que continuar sem ter novas contratações. “Podem prestar serviços de manutenção e operação, podem trazer máquinas de fora, que são mais baratas que as do Brasil e têm uma diversidade muito maior, que permite adequar melhor a máquina ao vento. Um exemplo: [os fabricantes] investiram R$ 2 bilhões no máximo. O Brasil investiu em eólica, R$ 60 bilhões. Se fossem trazidas máquinas de fora, você certamente teria uma energia mais barata”, comenta Araripe.

O presidente faz uma comparação com a política de nacionalização para o setor de informática, nos anos 90. “Você tinha computadores lentos e lá fora tinha computadores muito rápidos. É mais ou menos isso. Aqui nós temos os melhores ventos do mundo. A máquina que usamos tira 50% [da capacidade], com a outra, mais barata, seria 70%, uma energia muito mais barata”, projeta.

Para Araripe, de onde quer que venha o financiamento, é certo que a participação da fonte na matriz continuará aumentando (atualmente, está abaixo de 10%). E o executivo imagina manter a participação da Casa dos Ventos como desenvolvedora de um quarto dos projetos eólicos contratados no Brasil. A companhia tem em carteira 15 GW para participar de futuros leilões, como investidora ou como desenvolvedora. Isto demandaria, calcula Araripe, R$ 90 bilhões em investimentos, motivo pelo qual a companhia deve continuar vendendo parte de seus projetos. “Mas também estamos investindo muito em operação e manutenção, há três anos criamos um núcleo aqui que só estuda O&M”, aponta o executivo.

É uma evolução natural dos negócios da Casa dos Ventos, que surgiu basicamente como desenvolvedora, passou a construir e operar os próprios projetos, e agora quer operar e dar manutenção. “Foi uma condição da negociação de alguns projetos que a gente vendeu. Continuamos tendo acesso à toda informação, analisamos todos os dados. Estamos estabelecendo a habilidade de fazer manutenções preventivas, preditivas. A ideia é que no futuro a gente preste esse serviço. Temos investido montante significativo, mensalmente, para ter o melhor entendimento de como operar essas máquinas e aumentar a eficiência, a disponibilidade”, detalha.

Assim, a Casa dos Ventos continua caminhando junto com o mercado que ajudou a desenvolver, sem descuidar de seus negócios já estabelecidos. “Hoje temos as “jazidas de ventos”, digamos assim. Percebemos os potenciais e fizemos os contratos de arrenda-mento, licenciamento, as sondagens, os estudos de microsite, o ritmo de trabalho aqui é o mesmo de três anos atrás. Não teve leilão, recentemente, mas é como se fosse ter, mantemos preparados”, acrescenta Araripe.

Números da Casa dos Ventos

Projetos desenvolvidos em operação: 2,6 GW

Projetos desenvolvidos em construção: 1,5 GW

Investimentos nos últimos três anos: R$ 6 bilhões

Carteira de projetos: 15 GW

Fonte: Brasil Energia